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Uma história para a noite de Halloween

Quando fiz 9 anos, percebi que me podia esgueirar para fora do quarto e, enquanto os meus pais dormiam, ir até à cozinha, abrir o frigorifico e comer o que eu quisesse. Nunca notaram.
Comia bolachas com manteiga, pão com maionese, restos de doces. Desde que fosse muito cuidadoso podia fazer o que eu quisesse.
Rastejar era a parte mais difícil. Percorria a casa como um ninja. Uma noite em maio de 1987, a minha mãe fez mousse de chocolat...e e sobrou bastante. Esperei até que todos estivessem a dormir e rastejei até à cozinha com aquele doce no pensamento.
Demorou uma eternidade. Finalmente entrei na sala totalmente escura, que fica antes da cozinha. De repente, ouvi um talher bater no vidro. Congelei. A pouca luz da rua que entrava pela janela semiaberta mostrava o contorno de um homem sentado no balcão da cozinha.
Ele não podia me ver, mas eu vi-o: um homem magro comia a mouse de chocolate e bebia leite diretamente do pacote.
É aterrorizante sentir a presença de um estranho em nossa casa, principalmente para uma criança de 9 anos. Afastei-me devagar e acordei os meus pais. Fizeram muito barulho e demoraram demasiado tempo. Quando desceram a cozinha estava vazia.
Disseram-me para ir dormir porque tinha sido um sonho mau e também que eu lia muitas histórias estranhas.
Depois deste dia comecei a memorizar os sítios dos objetos que estavam na cozinha. Um dia, o porta guardanapos estava no lado oposto do balcão; outro dia, apareceu uma caneca no lava-loiça que não estava lá.
Nunca tranquei a porta do meu quarto, porque os meus pais não queriam, mas levei uma faca da cozinha para debaixo da almofada.
Em agosto, estava eu deitado na cama a ler, quando olhei para o buraco da ventilação que está no teto do meu quarto. Por trás da abertura, estava um par de olhos a observar-me.
Fiquei muito assustado nesse dia e obriguei os pais a vasculharem todo o sótão. Não encontraram nada.
Na última semana de agosto, a nossa casa começou a cheirar mal. Uma noite, o que parecia ser arroz caiu da abertura do teto sobre a minha cama. Eram larvas. Foi um homem lá a casa ver o que se passava. Depois de ver, disse que provavelmente alguma coisa entrou dentro daquele respirador e morreu.
Mas o que rastejou para dentro do respirador foi um homem.
Morávamos numa casa antiga, com muito espaço entre as paredes e passagens para os respiradores. E ele morava ali desde maio.
Havia uma almofada de espuma ao lado da ventilação do meu quarto. Provavelmente queria estar confortável enquanto me observava.
Nunca foi identificado. Foi enterrado como um corpo desconhecido.
Até hoje não consigo olhar para dentro das ventilações das casas.
Mas, às vezes, quando estou na casa de alguém e sinto um aroma estranho vindo do ar condicionado, fico a imaginar quem está a morar naqueles espaços apertados de ventilação, quem está a morar no escuro.

HG

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