Apresentação da antologia «Pompeias Anunciadas»

De modo a entenderes o conceito por trás de «Pompeias Anunciadas – Testemunhos do Fim das Nossas Cidades», apresentamos a antologia, com organização de Luís Filipe Silva. Consulta o regulamento aqui e submete o teu conto até 31 de Agosto de 2021.

(O fim anunciado)

A catástrofe fascina-nos. A destruição prende-nos o olhar. Quando Nova Jersey é atacada pelos raios dos trípodes marcianos, destruindo viadutos e casas, suspendemos a respiração, percebendo que o frágil grupo liderado por Tom Cruise é realmente uma mera desculpa para testemunhar o fim com a segurança narrativa que só os protagonistas da ficção nos garantem. Não basta escutar a descrição dos acontecimentos na boca de uma personagem, não nos satisfaz entendermos o horror reflectido no rosto – é preciso ver. É preciso ver Manhattan destruída pelas ondas, Los Angeles soterrada pelo magma da erupção vulcânica, Paris em cinzas pela acção da bomba atómica, Londres desfeita por terramotos. Assistir a todos os pormenores da tragédia. Sentir a respiração do drama em todos os movimentos e compassos, qual sinfonia cósmica do desastre.

Mencionámos filmes – podíamos ter mencionado banda desenhada e histórias em quadrinhos. Romances. Ficção Científica. Fantasia. As histórias de destruição abundam no género. Dan Simmons deixou cair um miniburaco negro em França e chamou-lhe a Cratera-Paris. Os protagonistas de Wells sobrevivem no fim dos tempos, mas de Londres só restam ruínas. Katushiro Otomo ergue uma Nova Tóquio, apenas para desfazê-la antes do final da narrativa.

(A memória de Pompeia)

O que há em comum nestas histórias? A cidade. Se a destruição nos prende o olhar, o colapso do espaço urbano equivale ao acabar da civilização como a conhecemos, à chegada do Armagedão da espécie ou, no mínimo, à invasão dos bárbaros. A cidade – vencida pelos desastres naturais, mas também pelos cataclismos fabricados por mão humana. Tecnologia perigosa à solta. Máquinas de guerra. Pragas virais. Zombies e zumbis. Monstros. Extraterrestres.

Da destruição, permanece a memória. A cidade é um imenso organismo que não desaparece facilmente. Guarda testemunho. Enterrada sob camadas de terra, à espera, palimpsesto silencioso de um antigo frenesi de pessoas e paixões e anseios e desgostos, vidas interrompidas pela urgência maior, mais forte, do fim. À espera de que gerações futuras reconheçam, prestem homenagem, ao extremo sacrifício.

Ainda hoje se fazem escutar os gritos de Pompeia.

(A nossa vez)

Mas, com tanta destruição urbana nas páginas e nas imagens da Ficção Científica e Fantasia, coloca-se a pergunta… e as cidades que falam português? Quem fala do Rio submerso, de São Paulo esmagada por asteróides, de Manaus lentamente assimilada pela vegetação geneticamente alterada?  Quem canta o fim de Lisboa às mãos do maior terremoto da História, o pânico dos ataques terroristas no Porto, a chacina de Coimbra ante as hordas carnívoras? Quem sobrevive em Luanda e Maputo, soterradas sob os glaciares da inversão climática? Quem recorda, afinal, aqueles territórios discretos do Oriente, como Goa e Macau, em que a língua lusa se apaga aos poucos como a mais ténue das velas, assolados por armas micromoleculares fora de controlo?

Quem descreve o pânico nas ruas, o sofrimento das gentes, as terríveis horas da catástrofe? Quem perpetua os feitos corajosos, as tentativas de salvamento, a união do espírito humano nos momentos difíceis?

Quem vai contar ao mundo as nossas histórias? As do Brasil? As de Portugal? As de todos nós?

(Proposta da antologia)

A nossa proposta é falar dos espaços que nós conhecemos. Das nossas cidades, dos nossos territórios, da nossa história, das nossas gentes.

Queremos que destruam estes espaços com toda a espectacularidade só encontrada num filme de Hollywood!

Mas porque a boa literatura não se limita a espectáculo, queremos que contem as histórias íntimas, pessoais, humanas – mesmo se não forem vividas por humanos. Queremos sentir o terror desses momentos, mas também a esperança. Queremos conhecer os hábitos dos últimos dias. Queremos saber como recuperou – se recuperou. Queremos ser arqueólogos e, pela investigação científica, perceber o que aconteceu a essa civilização da qual não resta mais memória. Há vida nas cidades mortas.

Queremos, acima de tudo, ficar surpreendidos e emocionados pelas vossas narrativas.

(As vossas perguntas)

Há limites para a forma ou época da destruição?

Não. Deixamos à vossa imaginação. A destruição pode demorar um nanossegundo ou um milénio. Pode ser acidental ou provocada. Pode ser humana ou inumana. Convém evitar o óbvio. Asteróides, terramotos ou tempestades são as primeiras causas que surgem à mente dos escritores, logo uma história que as utilize irá competir naturalmente com mais histórias do que uma que utilize uma causa improvável (por exemplo, cronoaceleração nanomolecular…).

Temos de mostrar a destruição a acontecer?

Será relevante que o façam, mas não é obrigatório. Pompeia ainda hoje coloca enigmas aos arqueólogos, milhares de anos depois da tragédia. Será aceitável, se bem construída, uma história que se centre na descoberta do que aconteceu à cidade. Ou, até, de que cidade, afinal, era aquela…

Apenas podemos falar de cidades em que se fale a língua portuguesa?

É um requisito crucial, mas não totalmente exclusivo. Se a história for boa, podem falar (também) de outras metrópoles. A intenção é criar mitos em torno da nossa cultura, pois das grandes metrópoles internacionais já muito se falou e escreveu. Afinal, também temos direito a uma devastação massiva como os outros…

Convém falar das cidades mais conhecidas?

Bem, aqui aplica-se a mesma regra que as formas de destruição. Se todos os contos falarem apenas do Rio de Janeiro, São Paulo, Porto e Lisboa, vamos ter uma antologia muito limitada. Lembrem-se que a diversidade ajuda, e que as cidades são diferentes entre si. Que tal apresentarem-nos aquele espaço urbano menos conhecido e menos falado, mas não menos importante?

E se o meu conto se basear no futuro, a cidade pode ser imaginada?

Pode, com certeza, mas que fale também uma variante do português – que existe hoje ou nesse futuro em questão. Pode ser uma cidade no espaço, num sistema solar distante. Pode ser um planeta-cidade, como Trantor. Pode ser uma cidade esquecida ou destruída do passado inventado, de um presente alternativo. O conceito do espaço urbano tem evoluído ao longo da História humana e não há motivos para terminar na era presente. Dêem ouvidos à vossa criatividade.

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